A Encarnação do Verbo eterno de Deus no Homem Jesus Cristo é o mistério central da nossa fé, e situa, em termos únicos e definitivos, a religião, concebida como relação dos homens com Deus. A Encarnação é uma manifestação tão ousada e inaudita da relação de Deus com o homem, que só Deus, no Seu insondável desígnio, a podia imaginar e realizar. A fé de Israel estava centrada na Aliança entre Deus e o Seu Povo, proposta de intimidade e fidelidade mútua entre os homens e Deus. A Aliança apresentava um Deus próximo, bom e misericordioso, solícito com os homens, presente e comprometido com a sua história. Pela Sua Palavra, revela-Se e desvela o Seu desígnio; pelo Seu poder conduz a história; pela Sua misericórdia está sempre disposto a perdoar e a transformar as infidelidades em momentos de redenção e de aprofundamento da Aliança. Mas, como diz São João, “a Deus ninguém jamais O viu”. Fala através dos Profetas, conduz o Povo através de Juízes e de Reis que Ele deseja sejam “pastores de Israel”, e promete um tempo novo de consolidação definitiva da Aliança, em que enviará um “Rei Justo”, o Seu ungido, que conduzirá o Povo à plenitude da Aliança. Na fé de Israel, a densidade da Aliança concentra-se na esperança messiânica.
Mas em nenhum momento do Antigo Testamento, por mais profunda que seja a expectativa messiânica, se ousa afirmar a divindade do Messias esperado. Ele é um príncipe da linhagem de David, realizará acções que só Deus pode realizar, como salvar o Povo dos seus pecados; Ele realizará a obra de Deus, será o Seu “Servo” por excelência. É certo que, em perspectiva escatológica, chega a ser imaginado como uma figura celeste, um “Filho do Homem”, que aparece sobre as nuvens do Céu. Mas que o Messias seja a Encarnação do próprio Deus, é a surpresa reservada por Deus para os que acreditarem na ressurreição de Jesus Cristo. A divindade de Cristo continua a ser a surpresa inaudita da fé cristã, afirmação da humanização de Deus e da divinização do homem, novo capítulo da “nova e definitiva Aliança”. Em relação ao homem, Deus afirma-se mais pela proximidade do que pela distância; diz-nos que, vencido o pecado, há na profundidade do homem a capacidade de ser semelhante a Deus. Afinal Deus e o homem são da mesma família, o que já estava sugerido na narração da criação, quando se diz que Deus criou o homem à Sua imagem e semelhança.
