quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Conselho para a unidade dos Cristãos


PONTIFÍCIO CONSELHO PARA A UNIDADE DOS CRISTÃOS

APRESENTAÇÃO DE D. BRIAN FARRELL

O ecumenismo nos dias de hoje:
a situação na Igreja Católica
Resultados de uma sondagem
do Pontifício Conselho para
a Promoção da Unidade dos Cristãos


Introdução

Durante o mês de Novembro de 2004, o Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos organizou um encontro internacional nos arredores de Roma (Itália), com a finalidade de recordar o quadragésimo aniversário da promulgação, ocorrida no dia 21 de Novembro de 1964, do Decreto sobre o Ecumenismo Unitatis redintegratio, do Concílio Ecuménico Vaticano II. Mais de 250 participantes estiveram presentes nesse encontro. Entre eles, os Presidentes (ou os Secretários) das várias Comissões Ecuménicas da maior parte das Conferências Episcopais e dos Sínodos das Igrejas Orientais Católicas, os moderadores dos diálogos teológicos bilaterais com as principais Comunhões cristãs, os membros e consultores do mencionado Dicastério ecuménico. Estavam também presentes nesse encontro mais de trinta "delegados fraternos" das outras Igrejas e Comunidades eclesiais, do "Conselho Ecuménico das Igrejas" de Genebra (Suíça) e da "Conferência das Igrejas Europeias", além de diversos hóspedes representantes da Cúria Romana, das várias Universidades Pontifícias e das Faculdades de Teologia. A reunião tinha como finalidade celebrar, precisamente, o quadragésimo aniversário do compromisso ecuménico da Igreja, mas inclusive reflectir sobre o significado permanente do Decreto Unitatis redintegratio, examinar o caminho percorrido a partir do Concílio Vaticano II até hoje e formular propostas para uma acção futura.

Em preparação para este importante encontro internacional, o Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos tinha enviado um questionário às várias Conferências Episcopais e aos Sínodos das Igrejas Orientais Católicas, com o objectivo de elaborar um relatório acerca da situação actual do ecumenismo no interior da Igreja Católica e também a nível local. Mediante esta iniciativa, o Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos desejava apurar o grau de aplicação prática, tanto da Unitatis redintegratio, a quarenta anos de distância da sua promulgação, como do Directório Ecuménico, publicado dez anos depois da divulgação desse Decreto conciliar. Dos 163 questionários enviados, 83 foram preenchidos e restituídos ao Pontifício Conselho. Considerando as respostas recebidas a níveis continental e regional, pode-se constatar o seguinte: 20 respostas da África (44% dos organismos episcopais e sinodais presentes nesse Continente); 17 respostas da América Latina e do Caribe (71%); uma resposta da América Setentrional (50%); 12 respostas da Ásia (60%); 24 respostas da Europa (60%); sete respostas do Médio Oriente (46%); e duas respostas da Oceânia (40%).

O Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos está totalmente consciente da natureza limitada desta sondagem; o questionário não tinha sido formulado com bases científicas; as respostas foram menos numerosas em relação ao número que esperávamos, e correspondiam a realidades quantitativamente diversas entre si, o que não tornou possível uma comparação realmente credível dos dados e das estatísticas.

Para dar um exemplo, o Brasil não pode ser comparado com Gibraltar, nem a Alemanha com o Cazaquistão. Não obstante, julgamos ter à nossa disposição uma base sólida com relação à qual podemos traçar um quadro da situação actual do compromisso ecuménico. Quanto apresentamos a seguir constitui um breve relatório sobre os resultados alcançados na mencionada sondagem.

Os dados recebidos foram subdivididos segundo quatro temas principais:

1. O progresso da consciência ecuménica no âmbito da Igreja Católica;
2. A organização do ecumenismo;
3. A acção ecuménica da Igreja Católica a nível local; e
4. Algumas sugestões de reflexão sobre o futuro do ecumenismo.

1. O progresso da consciência ecuménica no âmbito da Igreja Católica

1.1 Sinais positivos
A sondagem demonstrou evidentemente que, em todas as regiões do mundo, a Unitatis redintegratio introduziu um melhoramento radical das atitudes católicas em relação aos outros cristãos; a abordagem polémica do passado não é mais predominante. Os católicos têm uma atitude positiva no que se refere à tarefa ecuménica a desempenhar. Eles desejam conhecer mais profundamente as outras Igrejas e Comunhões cristãs, enquanto manifestam em geral a vontade de participar nos acontecimentos e encontros ecuménicos, e de maneira especial no que diz respeito à oração conjunta em favor da unidade. O ecumenismo espiritual constitui uma prática muito difundida. Além da "Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos", que permanece como um elemento principal da acção ecuménica, as celebrações conjuntas das maiores festas litúrgicas e comemorações, assim como as solenidades civis, nacionais e locais, quase em toda a parte são hoje uma realidade. Além disso, há uma difundida partilha dos lugares de culto. Dois terços das respostas ao referido questionário fizeram referência à colaboração ecuménica a nível paroquial e à publicação de orientações para a actividade ecuménica nas respectivas regiões. Em geral, podemos estar certos de que o esforço em vista de aplicar o compromisso ecuménico do Concílio Vaticano II continua e difunde-se através de toda a Igreja.

1.2 Problemas e resistências
Contemporaneamente, não podemos ser ingénuos. E embora nem todas as dificuldades mencionadas nas respostas ao questionário estejam presentes ao mesmo nível em toda a parte na Igreja, um olhar de conjunto sobre estas dificuldades pode ser útil, enquanto evidenciam os desafios enfrentados por aqueles que trabalham pela unidade dos cristãos a nível prático.

Supondo uma possível síntese, pode-se afirmar que as questões teológico-pastorais que foram mencionadas com maior frequência nas respostas ao questionário são as seguintes:
o problema do reconhecimento recíproco do baptismo e o novo baptismo dos católicos por parte de algumas Igrejas e Comunidades eclesiais, como dado de facto ou práxis seguida; após a sua Sessão Plenária de 2001, o Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos enviou às Conferências Episcopais uma apresentação das directrizes sobre o reconhecimento recíproco do baptismo, que algumas delas tinham entretanto emanado. A apresentação foi também publicada no Boletim do Pontifício Conselho Ecuménico (cf. O reconhecimento recíproco do baptismo. Síntese das respostas das Conferências Episcopais Documento de estudo, em: Service d'Information Information Service, n. 109 [2002/I-II]. Este Documento é publicado nas línguas inglesa e francesa);

- a problemática dos abusos a respeito da communicatio in sacris;

- as questões relativas aos matrimónios mistos;

- os problemas levantados nalguns lugares por excessos aparentes em práticas devocionais católicas, relativas ao culto mariano;

- a questão da unificação da data da Páscoa tema debatido em vários contextos a partir do Concílio Ecuménico Vaticano II que constitui uma preocupação especialmente sentida no Médio Oriente;

- a diversidade na organização e nas estruturas eclesiais em determinados países faz com que os católicos encontrem dificuldades na identificação dos parceiros ecuménicos em certas Confissões; constata-se também a difundida presença de acusações recíprocas de proselitismo (América Latina, Egipto e Rússia); e

- por fim, muitas Conferências Episcopais concordam em indicar que a falta de uma literatura ecuménica acessível aos fiéis menos preparados constitui um problema.

Entre os factores não teológicos que têm repercussões sobre o ecumenismo, as respostas puseram em evidência os seguintes: as situações sociais e políticas (de forma especial na ex-União Soviética); os conflitos étnicos (África e região dos Balcãs); e a situação majoritária ou minoritária da Igreja. Na Europa Oriental, muitas respostas dizem respeito às tensões relativas à restituição dos bens eclesiásticos. Nalguns lugares, a promoção da unidade dos cristãos é vista como uma ameaça por determinados grupos islâmicos.

As respostas provenientes de todos os continentes realçaram a persistência de atitudes caracterizadas pelo temor recíproco, pela suspeita e pela desconfiança. Outros cristãos nutrem o medo de ser absorvidos pela Comunidade católica mais forte do que eles e, vice-versa, os católicos consideram com desconfiança certos grupos, que recorrem aos meios de comunicação e a campanhas públicas de opinião para criticar as doutrinas católicas ou para insistir sobre situações negativas ou escandalosas, para assim atacar a Igreja. Em síntese, ainda persistem muitas suspeitas acerca das respectivas intenções concretas e das motivações evangélicas dos programas e das atitudes de uns e de outros. Embora muito já tenha sido realizado em termos de purificação das mútuas memórias históricas, algumas Igrejas particulares continuam a afirmar que a recordação de acontecimentos do passado, tanto os mais remotos como os mais recentes, ainda impedem ou obstam os relacionamentos ecuménicos. A purificação das memórias constitui um tema sobre o qual o Papa João Paulo II chamou a nossa atenção em múltiplas ocasiões, e permanece um dos desafios mais cruciais para aqueles que trabalham em prol da unidade dos cristãos.

Algumas respostas evidenciaram a ausência de motivações e de entusiasmo e, em determinados casos, a suspeita de que o ecumenismo debilita a missão evangelizadora da Igreja Católica. Alguns católicos julgam que o ecumenismo compromete a sua fé e que equivale a admitir uma certa inadequação da Igreja Católica, que eles não estão prontos a aceitar. Nalgumas regiões, o número exíguo de cristãos pertencentes às outras Igrejas é considerado como uma justificação para a falta de iniciativas ecuménicas. Noutros lugares, as comunidades evangélicas e pentecostais mais recentes e a utilização indiscriminada do termo "seita" continuam a levantar problemas em todos os continentes. As Comunidades eclesiais (Baptistas, Evangélicas e Pentecostais) com as quais a Igreja Católica mantém um diálogo teológico e relacionamentos internacionais, que em certos casos continuam ao longo das décadas, são incluídas na lista das seitas. Por outro lado, e especialmente na América Latina, as respostas ao mencionado questionário indicaram frequentemente um não-reconhecimento do carácter cristão dos católicos por parte de alguns grupos evangélicos e pentecostais. Poderia ser útil recordar que esta dificuldade recíproca constitui o objecto de alguns documentos de estudo elaborados por várias comissões mistas de diálogo (por exemplo, o diálogo católico-pentecostal: Evangelização, Proselitismo e Testemunho comum; as "Consultas entre a Igreja Católica e a Aliança Evangélica Mundial": A Igreja, a Evangelização e os vínculos da Koinonia).

2. A reorganização do ecumenismo

O Concílio Ecuménico Vaticano II confiou a tarefa ecuménica de modo especial aos Bispos. O Directório para a Aplicação dos Princípios e das Normas sobre o Ecumenismo, por sua vez, recomenda a instituição de Comissões ecuménicas em todas as dioceses, e aos níveis nacionais e regionais, ou pelo menos a designação em cada diocese, de um delegado encarregado de promover o espírito ecuménico e os relacionamentos intereclesiais.

O Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos constatou com satisfação que apenas poucas Conferências Episcopais não dispõem de um Departamento ou Comissão para o Ecumenismo. Por outro lado, muitos dos questionários preenchidos recordaram que a acção de tais comissões ou delegados são limitadas. A este propósito, mencionou-se a falta de continuidade no desenvolvimento de projectos, a necessidade de uma potencialidade humana renovada e mais jovem entre aqueles que estão comprometidos na actividade ecuménica. A nível das dioceses, o quadro não é tão positivo: a falta de pessoas, de uma formação específica, de recursos tanto financeiros como de outros tipos significa que a acção ecuménica é muitas vezes deixada à iniciativa espontânea dos fiéis. Por outro lado, nalguns países reconhece-se a presença de florescentes grupos e associações de ajuda, formados por pessoas bem preparadas no campo ecuménico, activas na promoção da formação ecuménica nas várias dioceses, nas paróquias, nos seminários e nos grupos em geral. Deve-se prestar maior atenção à identificação de tais peritos e voluntários e ao desenvolvimento da sua formação.

No que concerne à adesão aos Conselhos de Igrejas, relevou-se uma mudança substancial nos anos mais recentes. Há quarenta anos, a Igreja Católica ainda não tinha aderido a nenhum destes Conselhos. Actualmente, do total dos 120 Conselhos de Igrejas existentes, ela é membro de 70, e participa em três dos sete Conselhos Regionais de Igrejas e em sete dos Conselhos Regionais de Igrejas, associados ao Conselho Ecuménico das Igrejas, de Genebra (Conforme os dados de que dispomos, relativos a Setembro de 2004, a Igreja Católica é membro integrante de três Conselhos Regionais de Igrejas: do Caribe, do Médio Oriente e da Região do Pacífico. A Igreja Católica é também membro de 14 Conselhos nacionais cristãos, dos Conselhos de Igrejas na África, de três na Ásia, dez na Oceânia, doze no Caribe, 25 na Europa, um na América Setentrional e cinco na América Meridional. Cf. "Inspired by the same vision": Roman Catholic participation in national and international Councils of Churches, Apêndice E).

Um novo Documento, de próxima publicação, elaborado pelo "Grupo Misto de Trabalho" entre os representantes da Igreja Católica e do Conselho Ecuménico das Igrejas, apresenta uma análise das implicações e das formas de participação católica nos mencionados Conselhos, assim como algumas sugestões para enfrentar as dificuldades e os desafios que impedem a participação católica nalguns lugares.

3. A acção ecuménica da Igreja Católica a nível local

No que se refere ao diálogo, 42 das 83 Conferências Episcopais que responderam à sondagem do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos confirmaram a presença no seu território de estruturas permanentes de diálogo com as demais Igrejas e Comunidades eclesiais; 38 delas dispõem das suas próprias Comissões mistas de diálogo. No que diz respeito à recepção dos documentos de diálogo, somente 35 Conferências Episcopais evidenciam uma boa difusão dos resultados e um debate activo, com a publicação de vários subsídios. Algumas pessoas que preencheram o referido questionário mencionaram também certas iniciativas em curso, em vista de utilizar a Internet para a promoção do ecumenismo em determinados países, um aspecto que o Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos tem grande interesse em desenvolver. No campo social, 44 Conferências Episcopais mencionaram a sua participação em actividades de cooperação com as outras Confissões. Também a este propósito, deve-se admitir que muito ainda pode ser realizado.

A necessidade de uma formação ecuménica mais idónea foi um dos temas realçados praticamente por todas as Comissões ecuménicas que responderam ao questionário. Ela deveria valer-se da presença e da contribuição de representantes de outras Igrejas e Comunidades eclesiais. Com efeito, o Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos formula votos a fim de que, onde for possível, esta formação seja cada vez mais realizada na colaboração. O Documento elaborado pelo Dicastério ecuménico em 1995: A dimensão ecuménica da formação de quem se dedica ao ministério pastoral, que oferece sugestões para um curso de ecumenismo e aconselha os subsídios para o organizar, não é suficientemente conhecido e ainda deve ser amplamente distribuído. Juntamente com a Congregação para a Educação Católica, o Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos tomou a iniciativa de promover uma sondagem a nível mundial, junto dos Seminários católicos dotados do seu próprio "Studium" Teológico, das Universidades e das Faculdades de Teologia, para conhecer exactamente de que maneira se dispensa o ensino sobre o ecumenismo, e se se lhe tem prestado a atenção que ele merece no conjunto da formação católica. Actualmente, está-se a promover uma colecta de dados com a intenção de publicar, em seguida, os resultados da sondagem.

4. Algumas sugestões de reflexão sobre o futuro do ecumenismo

A consulta demonstrou que o grau de compromisso na tarefa ecuménica a nível local está a crescer de intensidade e de extensão em toda a Igreja. Num mundo globalizado, os cristãos de todas as Igrejas sentem o desejo de superar a sua situação de divisão. O ecumenismo espiritual conversão da mente e do coração a Jesus Cristo, oração conjunta pela unidade está a reunir à sua volta uma atenção cada vez maior. Os questionários ofereceram numerosas e positivas sugestões para a acção ecuménica futura, evidenciando três aspectos a considerar com urgência, tanto no contexto presente como em ordem ao futuro: 1) incluir as iniciativas ecuménicas nos programas pastorais orgânicos das várias dioceses; 2) promover a formação ecuménica dos leigos, dos religiosos, das religiosas, dos seminaristas, dos sacerdotes e dos bispos; 3) reflectir sobre os modos de enfrentar o problema do proselitismo agressivo.

Num mundo que passou por uma grande transformação nos anos que nos separam do Concílio Ecuménico Vaticano II, a abordagem católica ao restabelecimento da unidade está impregnada de um novo realismo. Resulta mais claro do que nunca que o ecumenismo só pode ser promovido a partir de uma sólida base doutrinal, e de um diálogo rigoroso entre os cristãos divididos.

Sobretudo, compreende-se mais plenamente que a obra em prol da unidade somente pode desenvolver-se no interior de uma espiritualidade convincente e profunda, de uma espiritualidade de esperança cristã e de coragem. O Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos formula votos a fim de que a comemoração do quadragésimo aniversário da publicação do Decreto conciliar Unitatis redintegratio tenha inspirado uma nova esperança e uma renovada coragem naqueles que são mais directamente responsáveis pela realização do compromisso ecuménico da Igreja.



A Renovação Carismática Católica (RCC) de origem protestante


Renovação Carismática Católica



A Renovação Carismática Católica (RCC) é um movimento católico que surgiu nos Estados Unidos em meados da década de 1960. Ele é voltado para a experiência pessoal com Deus, particularmente através do Espírito Santo e dos seus dons. Esse movimento busca dar uma nova abordagem às formas de evangelização e renovar práticas tradicionais dos ritos e da mística católicos. O movimento carismático católico foi influenciado em seu nascimento pelos movimentos pentecostais de origem protestante e até hoje esses dois grupos se assemelham em vários aspectos.


Origem

A renovação carismática, inicialmente conhecida como movimento católico pentecostal, ou católicos pentecostais, surgiu em 1966, quando Steve Clark, da Universidade de Duquesne em Pittsburgh, Pensilvânia, Estados Unidos, durante o Congressso Nacional de "Cursilhos de Cristandade", mencionou o livro "A Cruz e o Punhal", do pastor John Sherril, sobre o trabalho do pastor David Wilkerson com os drogados de Nova York, falando que era um livro que o inquietava e que todos deveriam lê-lo.
Em 1966, católicos da Universidade de Duquesne reuniam-se para oração e conversas sobre a fé. Eram católicos dedicados a atividades apostólicas, mas, ainda assim, insatisfeitos com a sua experiência religiosa. Em razão disso, e recordando a experiência bíblica do Pentecostes e das primeiras comunidades cristãs cheias do Espírito Santo, decidiram começar a orar para que o Espírito Santo se manifestasse neles. Querendo vivenciar a experiência com o Espírito, foram ao encontro de William Lewis, sacerdote da Igreja Episcopal Anglicana, que por sua vez os levou até Betty de Shomaker, que fazia em sua casa uma reunião de oração pentecostal.
Em 13 de janeiro de 1967, Ralph Keiner, sua esposa Pat, Patrick Bourgeois e Willian Storey vão à casa de Flo Dodge, paroquiana Anglicana de William Lewis, para assistir a reunião. Em 20 de janeiro assistem mais uma reunião e suplicam que se ore para que eles recebam o "Batismo no Espírito Santo". Ralph recebe o dom de línguas (fenômeno chamado no meio acadêmico de glossolalia). Na semana seguinte, a fevereiro de 1967, Ralph impõe as mãos para que os quatro recebam o batismo no Espírito.
Em janeiro de 1967, Bert Ghezzi comunica a universitários de Notre Dame, South Bend, Indiana o que teria ocorrido em Pittsburgh. Em fevereiro, antes do retiro de Duquesne, Ralph Keifer vai a Notre Dame e conta suas experiências. Em quatro de março, um grupo de estudantes se reúne na casa de Kevin e Doroth Ranaghan. Um professor de Pittsburgh partilha a experiência de Duquesne, e em 5 de março de 1967 o grupo pede a imposição de mãos para receber o Espírito Santo.
Após a Semana Santa, relizou-se um retiro em Notre Dame para discernir o que Deus estaria querendo com essas manifestações. Participam professores, alunos e sacerdotes. 40 pessoas de Notre Dame e 40 da Universidade de Michigan, entre os quais Steve Clark e Ralph Martin, que em 1976 iriam para a Universidade de Michigan, em Ann Arbor.


RCC no Brasil


Adoração ao Santíssimo com Pregador Roberto Tannus da RCC
No Brasil a Renovação Carismática teve origem na cidade de Campinas, SP, através dos padres Haroldo Joseph Rahm e Eduardo Dougherty(2).
Os rumos que a Renovação Carismática tomará a partir de Campinas serão diversos, expandindo-se rapidamente pela maioria dos Estados brasileiros. Entre algumas informações disponíveis encontramos as de Dom Cipriano Chagas que registra:
- Em 1970 e 71 iniciou-se a Renovação em Telêmaco Borba, no Paraná, com Pe. Daniel Kiakarski, que a conhecera nos Estados Unidos também em 1969.
- Em 1972 e 1973 Pe. Eduardo, de novo no Brasil, deu vários retiros e iniciou grupos de oração. Assim foi, por exemplo, em Belo Horizonte, em 1972, com um grupo pequeno de 8 ou 9 pessoas.
- Em janeiro de 1973 o Pe. George Kosicki, CSB, que havia muito participava ativamente da Renovação nos Estados Unidos, veio a Goiânia para um retiro carismático de uma semana. A ele compareceram D. Matias Schmidt, atual bispo de Rui Barbosa, na Bahia, e vários padres e religiosas, que iriam iniciar grupos de oração em Anápolis, Brasília, Santarém, Jataí, etc.
- Em 1973, perto de Miranda, no Mato Grosso, um pequeno grupo começou a ler o livro Sereis Batizados no Espírito e a rezar pedindo o dom do Espírito. Um mês mais tarde veio a eles o Pe. Clemente Krug, redentorista, que conhecera a Renovação em Convent Station, New Jersey; orando com eles, receberam o “batismo no Espírito” e o dom de línguas.
- Em geral, pois, pode-se dizer que os grupos de oração surgidos em inúmeras cidades do Brasil tiveram sua origem seja nas “Experiências de Oração no Espírito Santo” do Pe. Haroldo Rahm, SJ, seja nos retiros dados pelos padres Eduardo Dougherty, SJ e George Kosicki, CSB.
- Em vista da extensão que tomava a Renovação no Brasil, o Pe. Eduardo Dougherty, sentindo a necessidade de uma melhor organização, preparou com o Pe. Haroldo Rahm e Irmã Juliette Schuckenbrock, CSC, um encontro de fim de
semana em Campinas, que foi o I Congresso Nacional da Renovação Carismática no Brasil em meados de 1973, ao qual compareceram cerca de 50 líderes, para discernir a obra do Espírito Santo no Brasil.
- Em janeiro de 1974 foi realizado o II Congresso Nacional da Renovação Carismática, comparecendo lideres de Mato Grosso, Belo Horizonte, Salvador, Rio de Janeiro, Santos, São Paulo, etc(3).
Em outras regiões a Renovação Carismática começa a crescer, a partir de 1974: no Norte a diocese de Santarém com Frei Paulo, em Anápolis, no Centro Oeste, com Frei João Batista Vogel, no Sul de Minas, com Mons. Mauro Tommasini na Aquidiocese de Pouso Alegre. Também colaboram como divulgadores: Pe. Schuster, Dr. Jonas e Sra. Imaculada Petinnatti, Peter e Ingrid Orglmeister, D. Cipriano Chagas, Pe. Alírio Pedrini, Frei Antônio, Ir. Tarsila, Maria Lamego, Ir. Stelita(4).
No início, a Renovação atingiu os líderes já engajados em movimentos como Cursilho, Encontros de Juventude, TLC, etc, e foi se ampliando gradativamente como uma nova “onda” de evangelização com identidade própria(5).
Em 1972, Pe. Haroldo escreve o livro Sereis batizados no Espírito(6) , onde explica o que vem a ser o “Pentecostalismo Católico”. Sendo uma das primeiras obras publicadas no país sobre o movimento, trazia orientações para a realização dos retiros de “Experiência de Oração no Espírito Santo”, que muito colaboraram para o surgimento de vários grupos de oração.


Características e doutrina

Em termos de doutrina a RCC observa as Sagradas Escrituras; o Catecismo da Igreja e todas as demais diretrizes da Igreja.
A RCC prega e vive a fé em Jesus (entendido como Senhor e único Salvador de todos) e busca promover uma experiência pessoal com Deus vivo para renovar os valores morais dos cristãos. Em suas reuniões de Oração utiliza músicas de louvor, adoração que tornam os momentos carregados de ação de Deus, com pregações e o poder do Espírito Santo.
Prega que o pecado - definido como um ato ou desejo contrário a vontade de Deus - é a fonte dos males vividos na sociedade atual. Ganância, egoísmo, soberba, vícios, mau uso da liberdade, etc, são conseqüências dos pecados do homem. A não observação dos mandamentos da Lei Eterna afastam o homem de Deus e são obstáculos a vida Santa.
Defende que Jesus tem o poder de libertar e perdoar os pecados e que,para isso, basta que o homem arrependa-se de coração diante dele e se utilize da confissão.
Na RCC - e na Igreja Católica como um todo - todos são chamados a romper com o pecado e viver a santidade de Cristo por meio do Espírito Santo, que segundo eles concede ao homem a plena realização e resgata a sua imagem e semelhança com o Criador de todas as coisas.
Como para todo católico, o bem maior que a RCC e a Igreja possuem é a Eucaristia que é a celebração da paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo. No movimento é também presente a devoção à Santíssima Virgem Maria, mãe de Jesus, proclamando a Virgem como bem-aventurada e pedindo sua intercessão e auxílio, já que ela viveu uma vida santa e que serve de modelo a ser seguido pelos cristãos para atingir a Salvação por Cristo.


Os carismáticos e o Espírito Santo

Os Cristãos crêem que é o Espírito Santo que conduz as pessoas à fé em Jesus Cristo e que lhes dá a capacidade para viverem uma vida feliz, livres do pecado, norteada pelos valores. O Espírito Santo habita dentro de cada Cristão. É o desejo de praticar o bem. Ele é descrito como um 'conselheiro' ou 'ajudante' (paraclete em Grego), o Espírito Santo paráclito (aquele que advoga) guiando-os no caminho da verdade e da justiça.
A Renovação carismática coloca uma ênfase especial nas obras do Espírito Santo. Os 'Frutos do Espírito' (i.e. os resultados da sua influência) são "amor, gozo (ou alegria), paz, longanimidade, benignidade, bondade, , mansidão, temperança" (Gálatas 5:22). Ele também concede dons (i.e. habilidades) aos Cristãos tais como os dons carismáticos de profecia, línguas, discernimento, sabedoria, cura, , milagres, e ciência. Embora alguns Cristãos acreditem que isto apenas aconteceu nos tempos do Novo Testamento, a RCC acredita que hoje estes dons estão novamente sendo concedidos.
Desse modo, nos grupos de oração da RCC é muito comum o uso do dom de línguas. Também não é raro serem alegadas visões e profecias de origem sobrenatural que transmitiriam mensagens de Jesus, do Espírito Santo ou de Maria. Às vezes chegam a ser alegadas a realização de curas espirituais ou físicas e outros milagres.


Efusão no Espírito

Segundo a RCC, a Efusão no Espírito Santo é uma experiência que normalmente decorre de um momento de oração e pela qual a pessoa adquire um novo e apurado senso de valor espiritual. A partir desse momento o Espírito Santo passa a orientar a vida da pessoa, confirmando verdades interiores e até modificando posturas diante dos homens e do mundo. Como primeiro resultado deste 'batismo' verifica-se o desejo pela oração e pela vida na Igreja. Fala-se também em proliferação de eventos sobrenaturais (idéias, fatos, nomes, condutas, pensamentos), tomados como revelações divinas (dons espirituais).
Segundo a teologia católica, toda pessoa recebe o Espírito Santo por ocasião do sacramento do Batismo. A Igreja não define a necessidade de um segundo batismo, conforme a profissão de fé do Credo Niceno: "Professo um só batismo para remissão dos pecados". Sendo assim, o 'Batismo no Espírito Santo' como entendido pela RCC, não é um sacramento nem um requisito para a Salvação. Ele seria uma renovação do contato com Deus que fora adquirido originalmente pelo batismo, um auxílio para uma vivência da fé mais próxima da anunciada no evangelho e o catalisador uma vida de oração mais intensa. Entende-se que esse batismo no Espírito Santo não seja uma invenção da RCC, mas parte dos primórdios do nascimento da Igreja.


A RCC e a CNBB

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) possui um Documento, chamado Documento 53, com recomendações disciplinando certas práticas místicas no contexto da RCC. Recomenda-se, por exemplo, que se evite a prática do "Repouso no Espírito" (na qual as pessoas parecem desmaiar durante os momentos de oração, mas permanecem conscientes do que ocorre em sua volta). E preocupações exageradas com o demônio:
63 - Orar e falar em línguas: O destinatário da oração em línguas é o próprio Deus, por ser uma atitude da pessoa absorvida em conversa particular com Deus. E o destinatário do falar em línguas é a comunidade. Como é difícil discernir, na prática, entre inspiração do Espírito Santo e os apelos do animador do grupo reunido, não se incentive a chamada oração em línguas e nunca se fale em línguas sem que haja interprete.
65. Em Assembléias, grupos de oração, retiros e outras reuniões evite-se a prática do assim chamado "repouso no Espírito". Essa prática exige maior aprofundamento, estudo e discernimento. (...)
68. Procure-se, ainda, formar adequadamente as lideranças e os membros da RCC para superar uma preocupação exagerada com o demônio, que cria ou reforça uma mentalidade feitichista, infelizmente presente em muitos ambientes.
O documento também menciona vários aspectos positivos do movimento.


Críticas

Um dos maiores críticos da RCC é o padre Quevedo. Ele afirma que vivem em um ambiente feitichista, místico e alienante. Por outro lado, há também muitos religiosos católicos que dão forte apoio a esse movimento, vendo ele como uma fonte de renovação de Deus para a Igreja.
Existem questões políticas também envolvidas no crescimento da RCC, pois até o final dos anos 80 boa parte da Igreja Católica, principalmente nos países em desenvolvimento como os da América Latina, era orientada pela Teologia da Libertação, que cresceu com a luta contra a ditadura militar, com as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e os diversos movimentos sociais.
O discurso da Teologia da Libertação tinha algumas de suas raízes no Marxismo e Comunismo e falava de luta de classes e participação dos cristãos católicos na política, com a intenção de se "construir o reino dos céus na Terra." Alguns membros da Igreja chegaram mesmo a participar da fundação de partidos políticos como o Partido dos Trabalhadores, no Brasil.
A RCC é mal recebida por grupos mais tradicionais dentro do catolicismo, que a acusam de sentimentalista e irracional, além da acusação de que muitos abusos cometidos durante a celebração da missa são obra dos carismáticos. Outro fato que desagrada aos tradicionalistas é o ecumenismo entusiasta de muitos membros da RCC, principalmente quando introduzem músicas pentecostais nas cerimônias católicas.


I

nfluência dos pentecostais

Especialmente no seu início, a RCC foi influenciada pelo movimento evangélico pentecostal. Seguem-se alguns dos maiores exemplos desse envolvimento.
  • O livro "A Cruz e o Punhal", influente na formação do movimento, foi escrito pelo Pastor David Wilkerson, que também pregou em um dos primeiros Congressos da RCC nos Estados Unidos;
  • Padre Tomas Forrest, liderança internacional da RCC no início do Movimento, teve sua experiência do 'Batismo' no Espírito Santo num retiro da Renovação Carismática Católica dos EUA pregado por dois padres, uma freira e dois evangélicos Metodistas. (3)
  • Parte considerável das músicas do livro "Louvemos ao Senhor" e outras populares no movimento, têm origem no protestantismo, tais como “Buscai primeiro o Reino de Deus” e “Glorificarei teu nome, oh Deus”, "Pelo Senhor marchamos sim...”, “A alegria está no coração...”, “Posso pisar uma tropa...”, “Eu navegarei...”, “Espírito (...) vem controlar todo o meu ser...”, “Espírito, enche a minha vida, enche-me com teu poder...”, “Assim como a corsa...”, “Deus enviou seu filho amado...”, “Se as águas do mar da vida...”, “Eu sou feliz por que meu Cristo quer...”. Temos ainda exemplos mais recentes, como “Levanta-te, levanta-te Senhor... fujam diante de ti teus inimigos”, “Venho Senhor minha vida oferecer", “Meu pensamento vive em você...”, “Se acontecer um barulho perto de você...”, “Celebrai a Cristo, celebrai...”.(3)
De fato, algumas vertentes evangélicas petencostais reclamam da RCC por esta copiar seus ritos e músicas. Por outro lado a RCC também tem suas próprias músicas. Para muitos carismáticos e pentecostais isso é visto de forma positiva, pois seria o início de um verdadeiro ecumenismo entre os cristãos através da partilha da música cristã. O diálogo ecumênico e uma maior aproximação com fiéis de outras denominações cristãs é uma das metas do Vaticano e da CNBB e uma recomendação da Igreja aos fiéis católicos.


OU SEJA, PROTESTANTES DENTRO DA IGREJA CATÓLICA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Papa Bento XVI


Papa Bento XVI

"Doce Cristo na terra"

(Santa Catarina de Sena, Carta n° 196, 3 a Gregório XI, papa)



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segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Condições para seguir a Jesus

CONDIÇÕES PARA SEGUIR A JESUS
(Lc 9, 23-26)

"23 Dizia ele a todos: 'Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz cada dia e siga-me. 24 Pois aquele que quiser salvar a sua vida vai perdê-la, mas o que perder a sua vida por causa de mim, esse a salvará. 25 Com efeito, que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se ele se perder ou arruinar a si mesmo? 26 Pois quem se envergonhar de mim e de minhas palavras, o Filho do Homem dele se envergonhará, quando vier em sua glória e na do Pai e dos santos anjos".

Em Lc 9, 23 diz: "Dizia ele a todos: 'Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz cada dia e siga-me".
Cristo Jesus é sincero e claro. Ele não promete vida fácil, vida de "poltronice", caminho largo, etc., para ninguém; mas diz a todos: "Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz cada dia e siga-me".
Mente aquele católico que afirma seguir a Cristo, mas diz estar dispensado de percorrer o caminho da cruz. Nosso Senhor exige que todos aqueles que O seguem carreguem a cruz diariamente: "Cristo repete-o a cada um de nós, ao ouvido, intimamente: a Cruz de cada dia. Não só em tempo de perseguição ou quando se apresenta a possibilidade do martírio, mas em todas as situações, em todas as atividades, em todos os pensamentos, em todas as palavras, neguemos aquilo que antes éramos e confessemos o que agora somos, visto que renascemos em Cristo" (São Jerônimo, Epístola 121, 3), e: "Vedes? A cruz de cada dia... nenhum dia sem Cruz: nenhum dia que não carreguemos com a Cruz do Senhor, em que não aceitemos o Seu jugo" (São Josemaría Escrivá, Cristo que passa, 58 e 176), e também: "É muito certo que aquele que ama os prazeres, que busca as suas comodidades, que foge das ocasiões de sofrer, que se inquieta, que murmura, que repreende e se impacienta porque a coisa mais insignificante não corre segundo a sua vontade e o seu desejo, tal pessoa, de cristão só tem o nome; somente serve para desonrar a sua religião, pois Jesus Cristo disse: aquele que quiser vir após Mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias da vida, e siga-Me" (São João Maria Vianney, Sermões escolhidos, Quarta-Feira de Cinzas).
A Cruz não só deve estar presente na vida de cada cristão, mas também em todas as encruzilhadas do mundo, como escreve São Josemaría Escrivá: "Que formosas essas cruzes no cimo dos montes, no alto dos grandes monumentos, no pináculo das catedrais!... Mas também é preciso inserir a Cruz nas entranhas do mundo. Jesus quer ser levantado ao alto, aí: no ruído das fábricas e das oficinas, no silêncio das bibliotecas, no fragor das ruas, na quietude dos campos, na intimidade das famílias, nas assembléias, nos estádios... Onde quer que um cristão gaste a sua vida honradamente, aí deve colocar, com o seu amor, a Cruz de Cristo, que atrai a Si todas as coisas" (São Josemaria Escrivá, Via Sacra, XI, n° 3).
A cruz é pesada, mas é preciso carregá-la todos os dias: "Parece dura e pesada a ordem do Senhor: quem quiser segui-lo tem de renunciar a si mesmo. Mas não é duro nem pesado o que ordena, pois ele próprio nos ajuda a cumprir seu preceito" (Dos Sermões de Santo Agostinho).
"Se alguém quer vir após mim".
O Pe. Alexandrino Monteiro escreve: "Se alguém quer vir após mim' - é o mesmo que dizer: - se alguém quer se salvar, se alguém quer ter parte comigo na glória eterna... é uma proposta que o Filho de Deus fez a todos os homens. O segui-lo ou não, deixa à nossa vontade, porque não quer forçar ninguém a entrar no céu".
"... renuncie a si mesmo".
O Pe. Alexandrino Monteiro comenta: "Renuncie a si mesmo' - Negar-se a si mesmo o que é? É dizer 'não' aos gostos e inclinações terrenas do nosso coração. Negar-se a si mesmo é não guiar-se alguém pelos conselhos de sua natureza depravada, mas pelos ditames da razão alumiada com a luz da fé. Negar-se a si mesmo é não dar ouvido às vozes que do interior se levantam, pedindo prazeres e deleites sensuais e satisfação completa de todos os apetites desordenados", e: "Ó Senhor, ser vosso discípulo significa ser todo vosso, pertencer-vos plenamente, estar perfeitamente unido a vós, formar convosco uma só coisa. Não vivemos mais, porém, viverdes vós em nós significa a união perfeita convosco. Ó meu Deus, como devo desejar ser vosso discípulo! Eis a maior glória que posso dar-vos!... Ó Senhor, ajudai-me a fazer o que para isso é necessário... Renegar a mim mesmo para servir-vos, que significa? Significa esquecer-me, fazer abstração de mim, já não me ocupar comigo, como se não existisse. Então, não mais terei interesses nem conveniências, nem gostos, nem vontades, nem nada mais! Já não existo, não cuido de mim... Esqueço-me completamente. Mas, ó Senhor, se já não busco meu bem, então nada mais buscarei absolutamente? Este coração, esta inteligência vazios de si, continuarão assim vazios?... Não! Nem por um instante sequer! Se me esvazio de mim para ser invadido por vós, Deus meu! Se me esqueço, é para só pensar em vós" (Bem-aventurado Charles de Foucauld, Meditazioni sul vangelo, Op. sp., p. 231).
"... tome a sua cruz".
Santo Agostinho comenta: "Que significa: Tome a sua cruz? Quer dizer: suporte tudo o que custa, e então me siga. Na verdade, quem começar a seguir meus exemplos e preceitos, encontrará muitos que o critiquem, que o impeçam, que tentem dissuadi-lo, mesmo entre os que parecem discípulos de Cristo. Andavam com Cristo os que proibiam os cegos de clamar por ele. Tu, portanto, no meio de ameaças, de carinhos ou proibições, sejam quais forem, se quiseres seguir a Cristo, transforma tudo em cruz: suporta, carrega e não sucumbas!" (Sermões), e: "Tome a sua cruz': - eis a condição sem a qual não se pode seguir a Cristo. A cruz não falta a ninguém: é tomá-la e seguir com ela a Jesus até à morte. Cruz é tudo que nos contraria ou torna a vida difícil. São as dores do corpo, tédio e agonia da alma, reveses da fortuna, estragos do tempo, prejuízos do inimigo, tudo, enfim, que nos aflige, tudo que nos arranca lágrimas e aperta o coração. Estas cruzes hei de recebê-las com ânimo generoso, abraçá-las com regozijo, pois são mimos com que Deus me visita. 'Toma a sua cruz' - nos diz a todos Jesus Cristo - porque o discípulo não é mais que seu mestre, nem o servo mais que seu senhor; porque se foi necessário que Jesus carregasse com ela para entrar na sua glória, muito mais nos é necessário a nós levá-la para podermos entrar numa glória, que só o combate nos fará nossa" (Pe. Alexandrino Monteiro).
Está claro que não basta carregar a cruz por um dia, uma semana, um mês, um ano, etc., mas é preciso carregá-la com amor e paciência todos os dias. Não olhemos para o tamanho da cruz, e sim, para a recompensa que receberemos de Nosso Senhor.
"... e siga-me".
Santo Agostinho comenta: "Esta palavra não deve ser ouvida como dirigida apenas às virgens e não às esposas; nem só para as viúvas e não para as casadas; nem só para os monges e não para os maridos; nem só para os clérigos e não para os leigos. Pois toda a Igreja, todo o corpo, todos os seus membros, diferentes e distribuídos segundo suas próprias tarefas, devem seguir o Cristo. Siga-o toda a Igreja que é uma só, siga-o a pomba, siga-o a esposa, redimida e dotada pelo sangue do Esposo. Nela encontra lugar tanto a integridade das virgens como a castidade das viúvas e o pudor dos casais. Estes membros, que nela encontram seu lugar, sigam o Cristo, cada um segundo a sua vocação, posição ou medida. Renunciem a si mesmos, isto é, não se vangloriem; tomem a sua cruz, quer dizer, suportem no mundo, por amor de Cristo, tudo o que lançarem contra eles. Amem o único que não ilude, o único que não é enganado nem engana; amem-no, porque é verdade aquilo que promete. Como suas promessas tardam, a fé vacila. Mas sê constante, perseverante, paciente, suporta a demora, e terás tomado a cruz" (Sermões), e: "Seguir a Cristo é acompanhá-lo por onde quer que Ele vá, ou seja para o Tabor ou para o Calvário... Seguir a Cristo é ser cristão; o que segue a Cristo é de Cristo; o que segue o mundo é do mundo; porém, seguir a Cristo é seguir a verdade, seguir o mundo é seguir o erro! Em seguir a Cristo está a felicidade" (Pe. Alexandrino Monteiro), e também: "Eis a obrigação de todos os fiéis: tomar a própria cruz e seguir a Cristo até morrer com ele e, portanto, com ele e nele ressuscitar... Escolher a vida é seguir a Jesus, renegando a si mesmo e levando a cruz" (Pe. Gabriel de Santa Maria Madalena).
Católico, não pise na cruz, pelo contrário, carregue-a com paciência: "Não existe coisa mais agradável a Deus do que sofrer com paciência e paz todas as cruzes por ele enviadas" (Santo Afonso Maria de Ligório), e: "Todas as chagas do redentor são outras tantas palavras que nos ensinam como devemos sofrer por ele. Esta é a sabedoria dos santos, sofrer constantemente por Jesus; assim ficaremos logo santos" (São Francisco de Sales), e também: "Todos os santos foram mártires ou pela espada ou pela paciência. Nós podemos ser mártires sem a espada, se guardarmos a paciência" (São Gregório Magno).
Em Lc 9, 24 diz: "Pois aquele que quiser salvar a sua vida vai perdê-la, mas o que perder a sua vida por causa de mim, esse a salvará".
O católico não pode passar por alto estas palavras de Jesus Cristo. Deve arriscar-se, jogar a vida presente em troca de conseguir a eterna: "Que pouco é uma vida para oferecê-la a Deus!..." (São Josemaría Escrivá, Caminho, n° 420).
A exigência do Senhor inclui renunciar a própria vontade para a identificar com a de Deus, não aconteça que, como comenta São João da Cruz, tenhamos a sorte de muitos "que queriam que Deus quisesse o que eles querem, e entristecem-se de querer o que Deus quer, e têm repugnância em acomodar a sua vontade à de Deus. Disto vem que muitas vezes, no que não acham a sua vontade e gosto, pensam não ser da vontade de Deus e, pelo contrário, quando se satisfazem, crêem que Deus Se satisfaz, medindo também a Deus por si, e não a si mesmos por Deus" (Noite Escura, liv. I, cap. 7, n° 3).
Em Lc 9, 25 diz: "Com efeito, que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se ele se perder ou arruinar a si mesmo?"
Edições Theologica comenta: "O fim do homem não é ganhar os bens temporais deste mundo, que são apenas meios ou instrumentos; o fim último do homem é o próprio Deus, que é possuído como antecipação aqui da terra pela graça, e plenamente e para sempre na Glória. Jesus indica qual é o caminho para conseguir esse fim: negar-se a si mesmo (isto é, tudo o que é comodidade, egoísmo, apego aos bens temporais) e levar a cruz. Porque nenhum bem terreno, que é caduco, é comparável à salvação eterna da alma", e: "... o menor bem da graça é superior a todo o bem do universo" (Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, I-II, q. 113, a. 9).
Em Lc 9, 26 diz: "Pois quem se envergonhar de mim e de minhas palavras, o Filho do Homem dele se envergonhará, quando vier em sua glória e na do Pai e dos santos anjos".
O católico nunca deve se envergonhar de Nosso Senhor e de Suas Palavras.
Hoje, infelizmente, milhares de católicos deixam de fazer o bem, preocupados com o que as pessoas dirão deles: "Que dirão os homens? - Eis o fantasma que intimida muitos cristãos e os retrai da Igreja, da frequência dos sacramentos e do exercício da virtude. Que dirão de mim os meus companheiros? - Aqui está um laço, com que o demônio prende a muitos jovens, impedindo-os de caminhar livremente na virtude, com perigo de sua salvação" (Pe. Alexandrino Monteiro).
Católico, já percebeu como os mundanos servem ao mundo e a Satanás abertamente? Usam todos os tipos de roupas, músicas e maquiagem, e não sentem vergonha de serem ridículos. Por que você se sente envergonhado de servir a Cristo Jesus, o Senhor que morreu numa cruz para te salvar?
Católico, sirva a Nosso Senhor abertamente: "Deixar de fazer o bem por temor de um - que dirão os homens? - é declarar-se covarde, é ser vencido antes de entrar em campo com o inimigo. E contudo, quantos não se rendem a este tirano, que mais existe na fantasia que na realidade? Os maiores potentados da terra, os espíritos mais cultos e as inteligências mais lúcidas do nosso tempo lhe rendem vassalagem!" (Pe. Alexandrino Monteiro).
Um rico marquês da França, achando-se um dia com um grupo de personalidades distintas, foi convidado a travar conhecimento com Ernesto Renan, o escritor tristemente famoso, que ousou escrever uma vida de Jesus Cristo em que sacrilegamente blasfemou a divindade do Redentor. Ernesto Renan já ia estendendo a mão, porém aquele senhor, retirando a sua, exclamou em voz alta, em público: "Nunca apertarei essa mão que esbofeteou o meu Senhor!"
Católico, olhe o exemplo desse rico marquês, seja você também forte e de caráter; não deixe o respeito humano te escravizar, pelo contrário, pise-o com a sua convicção e fortaleza.
O que dirão a Nosso Senhor na hora do julgamento, aqueles católicos que deixaram de servi-lO por respeito humano?


Pe. Divino Antônio Lopes FP.
Anápolis, 03 de julho de 2007

Fonte: Filhos da Paixão

Afasta-te de mim, satanás!

AFASTA-TE DE MIM, SATANÁS!
(Mt 16, 21-27)


“21 A partir dessa época, Jesus começou a mostrar aos seus discípulos que era necessário que fosse a Jerusalém e sofresse muito por parte dos anciãos, dos chefes dos sacerdotes e dos escribas, e que fosse morto e ressurgisse ao terceiro dia. 22 Pedro, tomando-o à parte, começou a repreendê-lo, dizendo: ‘Deus não o permita, Senhor! Isso jamais te acontecerá!’ 23 Ele, porém, voltando-se para Pedro, disse: ‘Afasta-te de mim, Satanás! Tu me serves de pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus, mas as dos homens!’ 24 Então disse Jesus aos seus discípulos: ‘Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. 25 Pois aquele que quiser salvar a sua vida, vai perdê-la, mas o que perder a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la. 26 De fato, que aproveitará ao homem se ganhar o mundo inteiro mas arruinar a sua vida? Ou que poderá o homem dar em troca de sua vida? 27 Pois o Filho do Homem há de vir na glória do seu Pai, com os seus anjos, e então retribuirá a cada um de acordo com o seu comportamento”.



Em Mt 16, 21 diz: “A partir dessa época, Jesus começou a mostrar aos seus discípulos que era necessário que fosse a Jerusalém e sofresse muito por parte dos anciãos, dos chefes dos sacerdotes e dos escribas, e que fosse morto e ressurgisse ao terceiro dia”.


O Pe. Juan Leal escreve: “Desde agora quer arrancar de uma vez por todas da mente de seus discípulos os pré-juízos que tinham sobre um Messias terreno, glorioso, restaurador da grandeza política de Israel, anunciando-lhes concretamente que havia de ser julgado e condenado à morte pelo Sinédrio, o mais alto tribunal da nação judia, no qual estavam representados os anciãos, os escribas e os sacerdotes. Quão longe estivessem os discípulos de entender estas palavras do Mestre, apesar de sua claridade, o veremos ainda mais tarde, e expressamente o manifestam São Marcos (9, 32) e São Lucas (18, 34)”, e: “Uma vez que os apóstolos haviam já chegado à convicção de que Jesus era o Messias, ‘desde então’ (Mt) – o que não requer uma imediata proximidade histórica com a cena de Cesaréia, mas que pode muito bem referir-se ao período de tempo seguinte a esta data histórica – ‘começou’, pois o faz pela primeira vez abertamente e o repetirá, segundo registram os evangelhos outras duas vezes, a expor-lhes a necessidade de sua morte, segundo o plano de Deus. Ele era o Messias, e eles o reconheciam por tal, e o céu o confirmava com seus milagres (Jo 3, 2). Porém não era o Messias nacionalista, político e triunfador que os judeus esperavam, nem o qual eles acreditavam (At 1, 6). Esta predição de Jesus sobre sua morte é precisa e terminante. 1) Este é o plano de Deus: ‘convém’ (Mc-Lc; cfr. Mt 26, 54). 2) Irá para isso a Jerusalém. A isso refere à resposta que ele manda dar um dia a Antipas: ‘Não pode um profeta morrer fora de Jerusalém’ (Lc 13, 33). 3) Ali será condenado pelos ‘anciãos, os sumos sacerdotes e os escribas’ (Mt). Era o tribunal supremo: o Sinédrio, com suas três classes de componentes. Mc, no lugar dos ‘sumos sacerdotes’ de Mt, põe ‘príncipes dos sacerdotes’. Os que haviam exercido o sumo sacerdócio eram membros natos do Sinédrio e permaneciam com o título de sumos sacerdotes. Na Escritura são chamados também ‘príncipes dos sacerdotes’ (At 4, 5-8). Pode ser que os dois títulos seguissem no uso popular ou que fosse uma citação ‘quoad sensum’. Possivelmente na categoria de sumos sacerdotes se incluíam os membros das famílias, das que se havia escolhido algum membro para o sumo sacerdócio. 4) Ali ‘sofrerá muito’ e será ‘entregue à morte’. Era a profecia de sua paixão: Getsêmani, Sinédrio, Pilatos e Herodes, flagelação, coroa de espinhos, Ecce Homo, via dolorosa, morte de cruz. É sempre a consciência de Cristo, de seu destino, de seu futuro, de seu dia e de sua liberdade. 5) Porém é também, para contrastar este messianismo de dor, o messianismo triunfante de sua ressurreição: ‘Ressuscitarei ao terceiro dia’ (Mt-Lc). Entretanto Mt-Lc citam que a ressurreição será ‘no terceiro dia’, Mc cita ‘depois de três dias’. Em outras passagens neo-testamentárias se usa a fórmula primeira (At 10, 40; 1 Cor 15, 4). A fórmula de Mc resultava um pouco ambígua sobre a precisão dos dias que devia permanecer no sepulcro (Os 6, 3). Acaso fosse isso com motivo, para que prevalecesse a fórmula ‘no terceiro dia’. A importância da ressurreição de Cristo como controle de toda sua obra é tal (1 Cor 15, 14), que Jesus Cristo vai anunciando-a repetidas vezes e com a precisão dos três dias. Já antes falou dela, ao dizer que, se destruíssem o templo de seu corpo, Ele o restauraria em três dias (Jo 2, 19), ou o sinal que deu de si mesmo aludindo aos três dias de Jonas (Mt 12, 39. 40). Jesus vai livremente à morte e à ressurreição” (Pe. Manuel de Tuya), e também: “A partir desse momento, Jesus, que já havia predito a sua paixão e morte, começou a anunciá-la com mais clareza ainda. Queria ele, deste modo, tirar da mente de seus discípulos o preconceito dominante então, de um Messias terreno glorioso, restaurador da grandeza de Israel, e preparar-lhes o ânimo para não se escandalizassem de sua paixão e morte na cruz” (PIB).
O Pe. Juan de Maldonado escreve citando alguns Autores.
A interpretação de São Jerônimo é: quando havia padecido. Porém é manifesto que a intenção do evangelista foi que Cristo, desde o ponto em que Pedro o confessou Filho de Deus, começou a falar de sua morte, e não uma vez, mas muitas, avisando aos apóstolos do que havia de passar, como se dissera que desde aquele momento não teve já Cristo em segredo aos apóstolos sua futura morte e paixão, mas que falava dela claramente.
Poderia perguntar porque desde aquele tempo e não antes. A razão é clara, e a trazem São João Crisóstomo, Eutímio e Teofilacto: porque antes não havia sido reconhecido ou publicamente confessado pelos apóstolos como Filho natural de Deus, e havia que temer, se fazia menção clara da ignomínia da futura morte, se escandalizassem e o deixassem ou se retardasse o progresso de sua fé. Por que depois? Por análoga razão: reconhecido por eles como Filho de Deus, eram idôneos para que se lhes explicasse o mistério de sua morte futura. E necessário que se fizesse, não fora que depois, se viram a Cristo padecer sem prévio anúncio, duvidassem de sua divindade, segundo observa Teofilacto. Assim fez em outra ocasião com semelhante motivo: Digo-vos isto para que não vos escandalizeis: Expulsar-vos-ão das sinagogas (Jo 16, 1-2). Outros dão outras razões: que Cristo quis prevenir com seu exemplo aos apóstolos para que padecessem, como está no versículo 24: Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me. Já o disse São Pedro (1 Pd 2, 21): Cristo padeceu por nós, dando-nos um exemplo, a fim de que sigamos seus passos.


Em Mt 16, 22-23 diz: “Pedro, tomando-o à parte, começou a repreendê-lo, dizendo: ‘Deus não o permita, Senhor! Isso jamais te acontecerá!’ Ele, porém, voltando-se para Pedro, disse: ‘Afasta-te de mim, Satanás! Tu me serves de pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus, mas as dos homens!”


O Pe. Francisco Fernández-Carvajal comenta citando alguns Autores e a Sagrada Escritura.
Os Apóstolos não entendem bem essa linguagem, pois ainda conservam uma imagem temporal do Reino de Deus. “Pedro, tomando-o à parte, começou a repreendê-lo, dizendo: ‘Deus não o permita, Senhor! Isso jamais te acontecerá!” (Mt 16, 22). Levado pelo seu imenso carinho por Jesus, Simão procura afastá-lo do caminho da Cruz, sem compreender ainda que ela será um grande bem para a humanidade e a suprema demonstração do amor de Deus por nós. “Pedro raciocinava humanamente e concluía que tudo aquilo – a Paixão e a Morte – era indigno de Cristo e reprovável” (São João Crisóstomo, Homilias sobre São Mateus, 54, 4).
Pedro encara a missão de Cristo na terra com olhos demasiado humanos, e não chega a entender que, por vontade expressa de Deus, a Redenção se tem de fazer mediante a Cruz e que “não houve meio mais conveniente de salvar nossa miséria” (Santo Agostinho, Tratado sobre a Trindade, 12, 1-5). O Senhor responde energicamente ao discípulo, tratando-o como se estivesse novamente com o tentador do deserto: “Retira-te de mim, Satanás; tu serves-me de escândalo, porque não tens a sabedoria das coisas de Deus, mas das coisas dos homens” (Mt 16, 23).
Em Cesaréia, Pedro tinha falado movido pelo Espírito Santo; agora, deixa-se dominar por uma visão terrena. O anúncio da Cruz, da mortificação e do sacrifício como bem, como meio de salvação, sempre chocará os que a encararem com olhos humanos, como Pedro nesta ocasião. São Paulo teve que prevenir os primeiros cristãos contra aqueles que “procedem como inimigos da cruz de Cristo; o fim deles é a perdição; o deus deles é o ventre; e fazem consistir a sua glória na sua própria confusão, tendo prazer, somente nas coisas da terra” (Fl 3, 17-19).
Pensando apenas com uma lógica humana, é difícil entender que a dor, o sofrimento, aquilo que se apresenta como custoso, possa chegar a ser um bem. Por um lado, a experiência mostra-nos que essas realidades, tão freqüentes no nosso caminho, nos purificam, nos enrijecem e nos tornam melhores. Por outro lado, no entanto, não fomos feitos para sofrer, pois todos aspiramos à felicidade.
O medo à dor, sobretudo, se se trata de uma dor forte ou persistente, é um impulso profundamente arraigado em nós, e a nossa primeira reação é de repulsa. Por isso, a mortificação, a penitência cristã, tropeça com dificuldades; não é fácil, e, ainda que a pratiquemos assiduamente, não acabamos nunca de acostumar-nos a ela.
A fé, no entanto, permite-nos ver — e experimentar que sem sacrifício não há amor, não há alegria verdadeira, a alma não se purifica, não encontramos a Deus. O caminho da santidade passa pela Cruz, e todo o apostolado fundamenta-se nela. É o “livro vivo em que aprendemos definitivamente quem somos e como devemos atuar. Este livro está sempre aberto diante de nós” (João Paulo II, Alocução, 1-4-1980). Devemos aproximar-nos dele e lê-lo; nele aprenderemos quem é Cristo, o seu amor por nós e o caminho para segui-lo. Quem procura a Deus sem sacrifício, sem Cruz, não o encontrará.
“Porque NÃO tens a sabedoria das coisas de Deus, mas das coisas dos homens” (Mt 16, 23). Mais tarde, Pedro compreenderia o profundo significado da dor e do sacrifício; sentir-se-ia alegre com os outros Apóstolos por ter “padecido por causa do nome de Jesus” (At 5, 41).
Nós, cristãos, sabemos que a nossa salvação e o caminho do Céu estão na aceitação amorosa da dor e do sacrifício. Existe por acaso uma vida cristã plenamente fecunda sem sofrimento? “Porventura os esposos estão certos do seu amor antes de terem sofrido juntos? Porventura, a amizade não se torna mais firme pelas provas sofridas em comum ou simplesmente por se ter sofrido junto com os outros o calor do dia, ou por se ter compartilhado com eles a fadiga e o perigo de uma escalada?” (J. Lechercq). Para ressuscitar com Cristo, temos que acompanhá-lo no seu caminho para a Cruz: aceitando as contrariedades e tribulações com paz e serenidade; sendo generosos na mortificação voluntária, que nos faz entender o sentido transcendente da vida e reafirma o senhorio da alma sobre o corpo. Como nos tempos apostólicos, devemos ter em conta que a Cruz que anuncia Cristo é escândalo para uns e loucura e insensatez para outros.
Hoje vemos também muitas pessoas que não sentem as coisas de Deus, mas as dos homens. Têm o olhar posto nas coisas da terra, nos bens materiais, sobre os quais se lançam sem medida, como se fossem os únicos reais e verdadeiros. A humanidade sofre o embate de uma onda de materialismo que parece querer invadir e penetrar tudo. “Este paganismo contemporâneo caracteriza-se pela busca do bem-estar material a qualquer custo, e pelo correspondente esquecimento — melhor seria dizer medo, autêntico pavor — de tudo o que possa causar sofrimento. Com esta perspectiva, palavras como Deus, pecado, cruz, mortificação, vida eterna... acabam por ser incompreensíveis para um grande número de pessoas, que desconhecem o seu significado e sentido” (A. del Portillo).
Sobre o trecho de Mt 16, 22-23, escreve o Pe. Manuel de Tuya: “O quadro era de uma plasticidade tal, de uma precisão como até então não haviam escutado de seus lábios, pois, como disse Mc acusando esta surpresa, ‘isto (condenação, morte e ressurreição) se dizia claramente’, tanto que Pedro, sempre com seu ímpeto e ‘tomando-o’ (Mt-Mc), acaso por seu manto, em todo caso com um gesto precipitado, o repreende, dizendo-lhe que isso jamais sucederá. Era Pedro, que realizava com a espontaneidade de seu enorme afeto a Cristo; porém, fazia, com efeito, da ‘carne e do sangue’. O interpretava bem São Jerônimo, ao dizer que Pedro, ‘ainda que errasse no sentido, não errou no afeto’. Lc omite todo este episódio. A expressão de São Pedro que transmite Mt, já que Mc se limita em dizer que Pedro ‘começou a censurá-lo’, é duplo, e, contudo, ambas são fundamentalmente sinônimas. A resposta de Cristo a Pedro é forte. Se ‘voltou’ (Mt) a ele – no caminho?, no gesto?, é recurso literário? – para ‘repreender-lhe’ (Mc). Manda Pedro apartar-se d’Ele, chamando-lhe ao mesmo tempo ‘Satanás’ (Mt 4, 10). Satanás era considerado na concepção demoníaca desta época como um ser pessoal, superior, que recebe diversos nomes, e que é ser hostil por excelência a Deus e a sua obra. Naturalmente, não é que Pedro o fosse nem que Satanás influía (Jo 13, 2), mas que sua expressão era digna da missão de Satanás: que era desfazer sua autêntica obra messiânica, e que já o havia planejado nas ‘tentações’ do deserto. Por isso, a expressão de Pedro a Jesus, que surge forte de afeto, é para ele ‘escândalo’ (Mt)... Pedro não olhava ‘as coisas de Deus, mas as dos homens’ (Mt-Mc)”.
O Pe. Juan Leal comenta: “As palavras de Cristo deixaram desconcertados os apóstolos. São Pedro, como mais ardente e impetuoso, se atreve a demonstrar com expressões veementes... Falam em suas palavras a carne e o sangue, isto é, os pré-juízos messiânicos, que ainda estão arraigados em seu coração, porém fala também o amor que sente por Jesus. O Senhor se volta então para Pedro e para todos os apóstolos, como adverte São Marcos (8, 33), e em tom severo repele suas insinuações, dirigindo-lhe umas palavras parecidas às que disse ao mesmo Satanás quando o tentou (Mt 4, 5-10). Lhe chamou Satanás, porque, como este, se opunha aos planos de seu Pai; e neste mesmo sentido, lhe disse que é para ele um tropeço, enquanto suas palavras se opunham como um obstáculo no caminho que Deus havia determinado a seu Messias”.
O Pe. Juan de Maldonado escreve citando alguns Autores.
E tomando-o. – Que todos interpretam apartando-o, chamando-o em segredo, como se não se atrevesse a repreender a Cristo diante dos demais (São João Crisóstomo, São Jerônimo, São Beda e Eutímio). Parece-me que é uma frase semelhante à castelhana quando quer um repreender a outro: ‘O tomou por sua conta’. Só que não me atrevo a afirmar que seja exato, pois não posso sustentar com exemplos tomados do hebraico, ainda que observando em Números 16, 1, que o verbo hebraico que corresponde ao grego original desta passagem significa falar ou começar a falar: e tomando-lhe Coré, etc.
Aos que não agrada esta interpretação, ofereço outra, que se lhes agradar, não agrada a mim. Este tomar se entende muitas vezes nos escritos dos apóstolos por compadecer-se: Ao enfermo na fé, disse São Paulo, tomai (Rm 14, 1); quer dizer compadecei. Pelo qual diz em outro lugar: Tomai uns aos outros (Rm 15, 7), isto é, tende misericórdia de uns e de outros. Também este sentido concorda com a ação de Pedro, que, ouvindo da futura paixão de Cristo, tomou-o, isto é, compadecendo intimamente, começou a repreendê-lo. E é o sentido que parece dar a este lugar São Jerônimo: tomando-o, isto é, tomando-o em seu afeto.
Começou a censurá-lo.- Não lhe repreendendo, mas aconselhando-o, como fazem os amigos, segundo São Beda e Eutímio notaram.
São João Crisóstomo e São Jerônimo dizem que Pedro, antes, ao chamar a Cristo Filho do Deus vivo, demonstrou que tinha mais fé n’Ele que os demais, agora demonstrou para com o Mestre maior amor.
Satanás.- Santo Hilário recusa admitir que este Satanás se dirija a Pedro. De maneira que separa assim as palavras. Primeiro disse a Pedro: “Afasta-te de mim”, e logo, dirigindo-se a Satanás, como se fosse o tentador do protesto do apóstolo, exclama: “Satanás, tu me serves de pedra de tropeço”. O que mais admira, é que o mesmo Santo Hilário em outro lugar disse que Pedro foi chamado Satanás.
Com razão poderia alguém se espantar do que chamou a atenção de Santo Agostinho: que em tão breve espaço de tempo, ao mesmo Pedro, chamava Cristo bem-aventurado e Satanás.
Santo Agostinho e Teofilacto dizem que Pedro era bem-aventurado, quando o Pai o revelava e não a carne nem o sangue, e Satanás, quando não sabia senão o humano e desconhecia o divino.
Não chamou, pois, a Pedro de Satanás como se ele fosse o diabo, mas com o significado de adversário, porque o era naquela ocasião, opondo-se que o Salvador morresse pelos homens.
Edições Theologica comenta: “Jesus opõe-Se com energia aos protestos bem intencionados de São Pedro. O Senhor dá-nos a entender assim a importância capital que tem para a salvação o aceitar a cruz (cfr. 1 Cor 1, 23-25). Pouco antes (Mt 16, 17) Jesus tinha elogiado Pedro: ‘Bem-aventurado és Simão’; agora repreende-o: ‘Afasta-te de Mim, Satanás!’; ali tinha falado Pedro movido pelo Espírito Santo, aqui pelo seu próprio espírito de que não se tinha despojado totalmente”, e: “Satanás pode ter aqui o sentido etimológico de ‘adversário, opositor’ ou ser apelativo próprio do diabo tentador, aplicado a alguém que lhe imita a ação de tentar, afastando do bem ou incitando para o mal. Em todo o caso, é injúria gravíssima e mostra até que ponto Jesus havia abraçado de coração sua dolorosa paixão para salvar os homens” (PIB), e também: “Retira-te de minha frente, Satanás, tu és para mim um obstáculo, teus pensamentos não são de Deus mas dos homens!’ Tremendo contraste entre estas palavras e as que ouvira o apóstolo em Cesaréia quando confessara a messianidade e divindade de Jesus. Lá: ‘Bem-aventurado és!’ e a concessão do primado; aqui, o apelativo de Satanás e a repulsa. O motivo é único; a oposição à paixão e morte do Senhor. Mais fácil é reconhecer, em Jesus, o Filho de Deus, que aceitar vê-lo morrer como malfeitor. Mas quem se escandaliza de sua cruz, escandaliza-se d’Ele; quem sua paixão recusa, a ele recusa, porque Cristo é o Crucificado” (Pe. Gabriel de Santa Maria Madalena), e ainda: “Ainda há pouco, falava Pedro sob a inspiração divina, agora fala como homem e segundo a carne. Não compreendendo o mistério do Filho de Deus aniquilado e calcado aos pés como um verme da terra, quer desviá-lo, em boa fé, da obediência à vontade de Deus. Por isso Jesus lhe chama Satanás, isto é, adversário, mau conselheiro – Note-se que, nesta passagem, o Divino Mestre nos ensinou ainda a obrigação de não darmos ouvidos a quem quer que nos desvie dos nossos deveres. Seja embora um amigo, é Satanás, é um mau conselheiro” (Dom Duarte Leopoldo).


Em Mt 16, 24 diz: “Então disse Jesus aos seus discípulos: ‘Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me”.


Quem segue a Cristo deve aceitar não só a cruz de Cristo, mas também a própria; “imediatamente o diz Jesus para ensinar aos discípulos que seria ilusão pensar em segui-lo sem levar com ele a cruz: ‘Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me acompanhe’. Após o pecado, é a única via de salvação para cada pessoa e para a humanidade inteira... O cristão não leva sua cruz à força; é um grande voluntário que a aceita com amor para fazer de si um sacrifício ‘vivo e santo’, em união com a cruz de Cristo, para a glória do Pai e redenção do mundo. Tal é, porém, impossível sem aquela profunda transformação de mentalidade que leva o cristão a pensar ‘à maneira de Deus’ e por isso o torna capaz de ‘discernir qual seja a vontade de Deus e de não se escandalizar perante o sofrimento” (Pe. Gabriel de Santa Maria Madalena), e: “Renunciar a si mesmo, isto é, às más inclinações da natureza corrompida; tomar a sua cruz, isto é, a que nos foi imposta pela Providência, e não outra; e aceitar, com coragem, as penas, trabalhos, sofrimentos e misérias da vida; seguir a Jesus é tomar o caminho por ele santificado” (Dom Duarte Leopoldo), e também: “Se alguém quer me seguir’ – é o mesmo que dizer: - se alguém quer se salvar, se alguém quer ter parte comigo na glória eterna. ‘Se alguém quer me seguir’ – é uma proposta que o Filho de Deus fez a todos os homens. O segui-lo ou não, deixa à nossa vontade, porque não quer forçar ninguém a entrar no céu. ‘Negue-se a si mesmo’ – E negar-se a si mesmo o que é? É dizer não aos gostos e inclinações terrenas do nosso coração. Negar-se a si mesmo é não guiar-se alguém pelos conselhos de sua natureza depravada, mas pelos ditames da razão iluminada com a luz da fé. Negar-se a si mesmo é não dar ouvido às vozes que do interior se levantam, pedindo prazeres e deleites sensuais e satisfação completa de todos os apetites desordenados. ‘Tome a sua cruz’: - eis a condição sem a qual não se pode chegar a Cristo. A cruz não falta a ninguém: é tomá-la e seguir com ela a Jesus até à morte. Cruz é tudo o que nos contraria ou torna a vida difícil. São as dores do corpo, tédio e agonia da alma, reveses da fortuna, estragos do tempo, prejuízos do inimigo, tudo, enfim, que nos aflige, tudo que nos arranca lágrimas e confrange o coração. ‘Toma a tua cruz’ – nos diz a todos Jesus Cristo – porque o discípulo não é mais que seu mestre, nem o servo mais que seu senhor; porque se foi necessário que Jesus carregasse com ela para entrar na sua glória, muito mais nos é necessário a nós levá-la para podermos entrar numa glória, que só o combate nos fará nossa. Seguir a Cristo levando com Ele a nossa cruz, é preciso para salvar a nossa alma” (Pe. Alexandrino Monteiro), e ainda: “Parece dura e pesada a ordem do Senhor: quem quiser segui-lo, tem de renunciar a si mesmo. Mas não é duro nem pesado o que ordena, pois ele próprio nos ajuda a cumprir seu preceito... Que significa: Tome a sua cruz? Quer dizer: suporte tudo o que custa, e então me siga. Na verdade, quem começar a seguir meus exemplos e preceitos, encontrará muitos que o critiquem, que o impeçam, que tentem dissuadi-lo, mesmo entre os que parecem discípulos de Cristo” (Santo Agostinho, Sermões).
São João Crisóstomo escreve: “Depois de Pedro ter dito: ‘Tem compaixão de ti, Senhor, nada disso acontecerá contigo’ (Mt 16, 22), e o Senhor o repreendeu: ‘Afasta-te de mim, Satanás!’ (Mt 16, 23) o Senhor não se contentou só com esta repreensão, mas quis fazer-lhe ver de uma maneira excessiva a inconveniência de suas palavras e manifestar-lhe o fruto de sua paixão. Por isso disse: ‘Então disse a seus discípulos: se alguém quer vir após mim’, que equivale a dizer: Tu me dizes: Tem compaixão. Pois eu te digo que não só te será prejudicial que eu evite minha paixão, mas que tu não poderás salvar sem padecimento, se não morreres e não renunciares para sempre a sua vida” (Homiliae in Matthaeum, hom. 55, 1), e: “Porque o que não se nega a si mesmo não pode aproximar-se daquele que está sobre ele. Porém, se nos abandonamos a nós mesmos, para onde iremos fora de nós? Somos uma coisa caída pelo pecado e outra por nossa natureza original. Nós nos abandonamos e nos negamos a nós mesmos, quando evitamos o que fomos pelo homem velho, e nos dirigimos para onde nos chama nossa natureza regenerada” (São Gregório Magno, Homiliae in Evangelia, 32, 2), e também: “Nega-se a si mesmo, aquele que repara sua má vida e começa a ser o que não era e deixa de ser o que era” (Idem., Homiliae in Hiezechihelem prophetam, hom. 10), e ainda: “Nega-se a si mesmo, aquele que pisoteando seu vão orgulho se apresenta diante dos olhos de Deus, diferente a si mesmo” (Idem., Moralia, 23), e: “Ainda que pareça que algum se abstém de pecar, entretanto, se não tomar a cruz de Cristo, não se pode dizer que está crucificado com Cristo ou que está abraçado à sua cruz. Por isso disse: ‘E toma sua cruz” (Orígenes), e também: “Devemos, pois, seguir ao Senhor, tomando a cruz de sua paixão, se não for na realidade, ao menos com a vontade” (Santo Hilário, in Matthaeum, 16), e ainda: “Como os ladrões sofrem também muito, o Senhor, a fim de que ninguém tenha por idôneo essa classe de sofrimentos dos maus, expõe o motivo do verdadeiro sofrimento, quando diz: ‘E me siga’. Devemos sofrer tudo por Ele e d’Ele devemos aprender as virtudes. Porque o seguir a Cristo consiste em ser zeloso pela virtude e sofrer tudo por Ele” (São João Crisóstomo, Homiliae in Matthaeum, hom. 55, 2), e: “Podemos tomar a cruz de duas maneiras. Dominando nosso corpo com a abstinência, ou carregando nosso espírito com a compaixão que inspiram as misérias do próximo. Porém, como muitas vezes se misturam alguns vícios com a virtude, devemos tomar em consideração que algumas vezes a vanglória acompanha a mortificação da carne e a virtude se faz visível e digna de louvor, porque aparece a secura no corpo e a palidez no rosto. E quase sempre, há uma falsa piedade que se compadece da alma, e que nos arrasta com freqüência a condescender com os vícios. O Senhor a fim de evitar tudo isso disse: ‘E siga-me” (São Gregório Magno, Homiliae in Evangelia, 32, 3), e também: “Ou de outra maneira, toma sua cruz o que está crucificado para o mundo e segue ao Senhor crucificado” (São Jerônimo).
O Pe. Juan Leal escreve: “Tomando Jesus Cristo ocasião da cena anterior, proclama agora a lei da mortificação e da renúncia de si mesmo. Por isso, como adverte São Marcos, estas palavras as dirigiu não só aos apóstolos, mas à multidão que fez chamar para que as escutasse (Mc 8, 34), como querendo significar que esta doutrina de seu reino era para todos. E antes (Mt 10, 38) encontramos o mesmo pensamento, ainda que ali falta a expressão de renunciar-se a si mesmo”.
O Pe. Manuel de Tuya comenta: “Este ensinamento que Cristo faz, e que em Mt se dirige a seus ‘discípulos’, é mais claro em Mc. Cristo, ‘chamando à multidão junto com seus discípulos, lhes diz...’ Que é o que resume Lc dizendo: ‘e dizia a todos’.
Necessidade da abnegação própria. – O primeiro ensinamento que Cristo faz aqui é a necessidade absoluta de ‘negar-se a si mesmo’ para entrar ou permanecer em seu reino, é dizer, desprezar tudo aquilo que obstaculiza as exigências para entrar no reino”.
O Pe. Juan de Maldonado escreve citando alguns Autores.
Se alguém quer. – Com razão São João Crisóstomo, Eutimio e Teofilacto advertiram que com essas palavras se confirma a existência do livre arbítrio.
Negue-se a si mesmo.- Em que consiste semelhante negação o explicam de diversas maneiras os autores. São Jerônimo, São Beda e São Gregório, acreditam que não é outra coisa que despir-se do homem velho e vestir-se do novo. ‘Então – disse São Beda – negamos a nós mesmos, quando evitamos o que fomos e insistimos na nova vida a que fomos chamados’.


Em Mt 16, 25-27 diz: “Pois aquele que quiser salvar a sua vida, vai perdê-la, mas o que perder a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la. De fato, que aproveitará ao homem se ganhar o mundo inteiro mas arruinar a sua vida? Ou que poderá o homem dar em troca de sua vida? Pois o Filho do Homem há de vir na glória do seu Pai, com os seus anjos, e então retribuirá a cada um de acordo com o seu comportamento”.


O cristão não pode passar por alto estas palavras de Jesus Cristo. Deve arriscar-se, jogar a vida presente em troca de conseguir a eterna: “Que pouco é uma vida para oferecê-la a Deus!” (São Josemaría Escrivá, Caminho, n° 420).
A exigência do Senhor inclui renunciar à própria vontade para a identificar com a de Deus, não aconteça que, como comenta São João da Cruz, tenhamos a sorte de muitos “que queriam que Deus quisesse o que eles querem, e entristecem-se de querer o que Deus quer, e têm repugnância em acomodar a sua vontade à de Deus. Disto vem que muitas vezes, no que não acham a sua vontade e gosto, pensam não ser da vontade de Deus e, pelo contrário, quando se satisfazem, crêem que Deus Se satisfaz, medindo também a Deus por si, e não a si mesmos por Deus” (Noite Escura, Liv. I, cap. 7, n° 3).
Edições Theologica comenta Mt 16, 26-27: “As palavras de Cristo são de uma clareza meridiana: situam cada homem, individualmente, diante do Juízo Final. A salvação tem, pois, um caráter radicalmente pessoal: ‘remunerará a cada um segundo as suas obras’ (v, 27). O fim do homem não é ganhar os bens temporais deste mundo, que são apenas meios ou instrumentos; o fim último do homem é o próprio Deus, que é possuído como antecipação aqui na terra pela graça, e plenamente e para sempre na Glória. Jesus indica qual é o caminho para conseguir esse fim: negar-se a si mesmo (isto é, tudo o que é comodidade, egoísmo, apego aos bens temporais) e levar a cruz. Porque nenhum bem terreno, que é caduco, é comparável à salvação eterna da alma”, e: “O menor bem da graça é superior a todo o bem do universo” (Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, I-II, q. 113, a. 9), e também: “Quando se trata da salvação da alma, devemos sempre colocar-nos em face da morte, diante do juízo final, tremendo e inexorável, desse momento em que O Filho do Homem há de vir com seus anjos, na glória de seu Pai, para julgar a todos os homens. Quão diferentemente havemos de apreciar as coisas da vida, quando chegar a hora da nossa morte!” (Dom Duarte Leopoldo).
São João Crisóstomo escreve: “Que coisa dará o homem por sua alma?’ Que vale tanto como dizer: se perderes as riquezas, poderás dar outras riquezas para comprá-las; porém, se perderes tua alma, não poderás dar outra alma e nenhuma outra coisa qualquer” (Homiliae in Matthaeum, hom. 55, 3), e: “Ao ordenar o Senhor a seus discípulos que se negassem a si mesmos e tomassem sua cruz, todos os que o escutavam se encheram de terror; porém a estes pensamentos tristes sucede a alegria com as palavras do Senhor. ‘Porque o Filho do homem há de vir na glória de seu Pai’. Temeis a morte? Ouvi a glória de seu triunfo. Tens medo da cruz? Escutai a quem servem os anjos” (São Jerônimo), e também: “Agora veio o Filho do homem, porém não em sua glória, porque não era oportuno que viesse em sua glória carregado de nossos pecados; porém virá em sua glória, quando houver preparado seus discípulos e os houver feito semelhantes a Ele e participantes de sua glória” (Orígenes, Homilia 2 in Matthaeum), e ainda: “Mas não disse Ele: em tal ou qual glória do Pai, a fim de evitar que se suspeitasse que houvesse duas glórias; mas na glória do Pai, para manifestar que falava de uma mesma glória. E se a glória é uma só, claro é que também a essência é uma só. Por que tens, ó Pedro, medo da palavra morte? Então me verás na glória, mas se eu estou na glória, também o estarão vocês; porém ao falar da glória, insinua coisas terríveis, pondo-nos diante ao juízo pelas palavras: ‘E então dará a cada um segundo suas obras” (São João Crisóstomo, Homiliae in Matthaeum, hom. 55, 4), e: “E o Senhor disse isso, não só para recordar aos pecadores os males, conseqüência de seus pecados, mas também as recompensas e as coroas dos justos” (Idem., Homiliae in Matthaeum, hom. 55, 4), e também: “O Senhor querendo manifestar o que é a glória que viria depois, a revelou aos apóstolos na vida presente (enquanto lhes era possível compreender), a fim de que não se abatessem com o pensamento da morte do Senhor” (Idem., Homiliae in Matthaeum, hom. 56, 1), e ainda: “Isto que se diz aqui, foi cumprido àqueles três discípulos, diante dos quais se transfigurou o Senhor na montanha, mostrando-lhes as alegrias da recompensa eterna: eles o viram do modo em que virá em seu reino, isto é, brilhando com a claridade, na qual o verão todos os santos depois do juízo” (Remígio).
O Pe. Paulo Segneri comenta o trecho de Mt 16, 26.
Cristo não fala propriamente de perda total, mas apenas de prejuízo, de dano para a alma. Isto significa que não só perdendo a alma não se lucra nada por um bem qualquer deste mundo, como também nem sequer convém sofrer qualquer dano espiritual por amor dos bens deste mundo: fossem mesmo os maiores. Realmente: quando será que poderás dar à alma o equivalente que lhe tiras? Sabes, por acaso, qual é o valor de um mínimo grau de glória? Vale certamente muito mais que todas as monarquias do mundo, em todos os tempos, consideradas juntas. Tanto que, se tu, para conseguir um domínio sobre todas elas, tivesses que cometer um pecado venial, serias um imprudente. Não só: és também um imprudente, quando sentes dificuldades em oferecer a Deus qualquer grande sacrifício de algo a que não estás obrigado sob pena de pecado: pois que, o que poderás oferecer a Deus que Ele mesmo um dia já não te tenha dado e que um dia também não irá te retribuir com imensa vantagem para ti? “Em suas terras terão partes dobradas” diz Isaías 61, 7, a respeito dos eleitos que se mortificam por amor de Deus.
Talvez, porém, esta medida pareceu a Jesus muito pouco expressiva, tanto que Ele a apresentou nestes outros termos: “No seio vos será lançada uma medida boa, e cheia, e recalcada, e sacudida” (Lc 6, 38). Já presenciaste alguma vez a venda de um saco de trigo realizada de amigo para amigo? Antes de tudo ele escolhe um saco que não seja defraudado: “medida boa”; em seguida enche de trigo o saco, mas até em cima, fazendo ainda pressão com as mãos: “medida cheia”; depois sacode o saco, para que, se possível, ajeitando bem o trigo no fundo, haja ainda um pouco de lugar: “medida recalcada”; e, por fim, ainda põe mais trigo, que chega até a sair fora do saco: “medida sacudida”. Poder-se-ia imaginar algo de mais benévolo e superabundante? E é essa a medida que o Senhor usará também contigo ao te retribuir todas as coisas que tiveres feito por seu amor, cada palavra, cada passo, cada sacrifício. O Senhor é bom.
Não há pois nenhuma dúvida possível a respeito da sentença que estamos meditando: “Que aproveita ao homem ganhar todo o mundo, se vier a sofrer prejuízo sua alma?” E que deveríamos dizer, quando se tivesse que pensar sobre a ruína total da própria alma?
Pensemos, pois, também, na perda de nossa alma, com relação aos bens deste mundo. Que te adiantará tudo quanto tiveres gozado em prazeres, grandezas, glória, se fores condenado? Acreditas, por acaso, que se houver algum imperador condenado no inferno, ele sinta algum refrigério ao pensar nos bens que teve nesta terra, nos seus velhos tesouros, nos seus antigos triunfos? Antes, não pode ser senão o contrário: o bem perdido somente poderá ser causa de maior aflição. E se, como no caso dos condenados, o bem terreno foi precisamente o início da perdição, quanto maior será a dor para quem perdeu os bens e a alma para sempre! “Será abatida a arrogância dos homens e humilhada a altivez dos grandes”, diz Isaías 2, 17: castigo em contraste direto com o pecado cometido sobre a terra.
Não há dúvida: nada te adiantará tanto esforço para subir, para acumular, para exaltar loucamente a condição de tua casa: perdendo a alma, tudo isso redundará em humilhação ainda maior para ti.
Diz o texto: que aproveitará? Mesmo presentemente que te aproveita? Devemos pensar, pois, que não só não aproveitará para a eternidade, como também não aproveita nem aqui nesta terra, o conseguir lucros com prejuízo para a própria alma. De fato, que te aproveitará qualquer bem se isso resultasse em perigo para ti? “Que dará o homem em troca de sua alma?” (Mt 16, 26): nenhuma compensação. O risco é por demais grave, para que possamos nos permitir de aceitá-lo ou mesmo até de pensá-lo. Que dizem aqueles que agora se encontram no inferno por causa dos próprios pecados? “De que nos aproveitou a soberba? De que nos serviu a vã ostentação das riquezas?” (Sb 5, 8). É a constatação experimental da relatividade de valores. Por conseguinte, para quem deve ainda viver nesta terra, é de grande importância a pergunta: que aproveitará? Que importa a tua posição destacada? Que importa a mitra? Que importa a púrpura? Que importa até mesmo uma tiara se com isso vieres a sofrer algum prejuízo em tua alma ou ficares exposto a perigos de condenação eterna?
Mas, na maioria das vezes, a medida dos homens é diversa: “São mentirosos os filhos dos homens postos na balança” (Sl 61, 10): eles fazem continuamente prevalecer o temporal sobre o eterno: eles não mantêm as justas proporções. Não se encontrarão, porém, balanças que dêem resultados assim tão enormemente errados: mentirosos são os homens, não as balanças, os homens, que até diante dos outros homens dão como lhes parece melhor, a inclinação da balança, opondo-se a toda e qualquer evidência da razão: “Rebeldes à luz” (Jó 24, 13).
Por mais que o Senhor tenha dito: Que aproveita ao homem ganhar todo o mundo, etc., apesar disso não haverá nenhum que será condenado por ter conquistado todo o mundo. A maioria condena-se por ter conseguido migalhas tão diminutivas e miseráveis deste mundo, que pensando bem, dá vontade de chorar. Nunca acontece que o demônio apanhe alguém pelos cabelos e o conduza até o alto do Olimpo ou a qualquer outro monte e mostrando-lhe “todos os reinos do mundo” diga-lhe: “Dar-te-ei tudo isso se prostrado me adorares” (Mt 4, 8-9). Os homens satisfazem-se com muito menos para dobrarem seus joelhos e prestarem-lhe homenagem: uma pequena vinha, como Acab, uma mísera igreja, um modesto cargo, uma pequena bolsa, como Judas; por tão pouca coisa não conseguirão abster-se de oprimir os pobres, das simonias, dos perjúrios, das traições. E, além disso, poder-se-á encontrar coisas piores: verás aqueles que nada exigirão como pagamento para cometerem seus pecados, mas pelo contrário, eles mesmos pagam: recomendam-se de certo modo ao demônio para que os compre, a ele que preferia ser comprado.
Vê aqueles que se perdem porque vão atrás dos seus prazeres sensuais, que não conseguem nem se “alegrar”...: o demônio ri, e deixa que esse esforcem em busca de novas invenções para despertarem os sentidos quase mortos. Vê quantos há que quase explodem de tanta raiva e apesar disso não conseguem vingar-se dos que os ofenderam. Vê como se debatem por causa da inveja e apesar disso não realizam um contrato proveitoso. Vê os que perdem a paciência com tanta ambição, e, todavia, não encontram um clima que lhes seja favorável. Todos esses, o que experimentam no pecado? Unicamente o amor doloroso da escravidão. Quanto ao resto, não encontram quem lhes pague mesmo que seja uma bagatela: “... não haverá comprador” (Dt 28, 68).
Católico, cuide bem da sua alma imortal: “Quem perde a própria alma já não está em condições de a resgatar. É no juízo final, no qual Jesus dará a cada um o que tiver merecido, manifestar-se-á quão grande e irreparável é a perda da alma” (PIB).




Pe. Divino Antônio Lopes FP.
Anápolis, 27 de agosto de 2008